Educação e tecnologias: a aprendizagem e seus desafios
Maryluce Cerqueira de Souza Viana[1]
Se a atividade
do homem se reduzisse a repetir o passado, o homem seria um ser voltado
exclusivamente para o fazer e incapaz de se adaptar ao amanhã diferente. É
precisamente a atividade criadora do homem a que faz dele um ser projetado para
o futuro, um ser que contribui para criar e que modifica seu presente (VYGOTSKY,
1998, p. 9).
O desenvolvimento da sociedade contemporânea tem
suscitado questionamentos a respeito do papel da escola na
educação do século XXI. Estamos diante
de um novo modelo de sociedade denominada de Sociedade da “Informação e
Comunicação”. Essa sociedade possui um novo formato de receber e transmitir
informações e isso ocasiona um acesso muito rápido e eficaz ao mundo. Dessa
forma, a informática, a mídia televisiva, a comunicação de massa, outras mídias
e aparatos tecnológicos ganham espaço em nossas vidas (PORTO, 2006).
As ferramentas/recursos tecnológicos[2] já
estão na escola, mas ainda não estão sendo utilizadas na sua plenitude, pois a
sua utilização requer um tratamento didático-pedagógico que articule a
necessidade dos alunos ao projeto de educação que a escola pretende construir.
Além disso, há o desafio da inserção das novas tecnologias ao Projeto Político
Pedagógico (PPP), é necessário refletir
sobre de que modo elas se presentificarão no currículo, de forma que vá além
dos conteúdos programáticos, dentro de uma perspectiva de um aluno real,
cidadão do mundo. E isso deve ser
imediato, pois não oferecer acesso à tecnologia no dia a dia escolar
significa privar os alunos de acesso à sociedade da informação e impedi-los de
conhecer novas formas de aprendizagens.
A comunidade escolar precisa cumprir seu papel de
formador de opinião e viabilizar novos espaços de aprendizagens, haja vista ser
função primordial da escola: o acesso aos conhecimentos seculares necessários
para compreender o presente a partir do que a história traz em seus registros
em todas as áreas do conhecimento. As Tecnologias da Informação e Comunicação -
TICs são contribuidoras desse encontro à medida que os profissionais da
educação promovam essa mediação com os alunos.
Neste contexto e a
respeito do conceito básico de educação Moran (2000) defende que
Educar
é colaborar para que professores e alunos - nas escolas e organizações -
transformem suas vidas em processos permanentes de aprendizagem. É ajudar os
alunos na construção da sua identidade, do seu caminho pessoal e profissional -
do seu projeto de vida, no desenvolvimento das habilidades de compreensão,
emoção e comunicação que lhes permitam encontrar seus espaços pessoais, sociais
e profissionais e tornar-se cidadãos realizados e produtivos.
Dentro desta percepção de educar, o
professor deve estar atento às formas de conceber o processo de ensino
aprendizagem. Assim, deve levar em conta as três principais características: o
sujeito, o objeto e a interação sujeito-objeto. Nessa perspectiva, Vygotsky
traz uma grande contribuição ao defender
a interação entre as pessoas para o desenvolvimento pleno através da linguagem.
Na visão do teórico, o professor deve se
constituir num mediador entre a criança e o mundo.
De acordo com os pressupostos vygotskyanos, é através da interação social que o aprendiz
entrará em contato com elementos mediadores e fará uso deles, propiciando, assim,
o surgimento dos processos mentais.
O sujeito estrutura o seu conhecimento fazendo uso de variados signos e
diversos instrumentos, idealizando e problematizando situações para as quais
propõe hipóteses e tende a desvendá-las usando seus próprios recursos, como a
criatividade e idéias próprias. Em
outras palavras, vai se apropriando a cada dia dos conhecimentos através das
relações estabelecidas dentro de seu meio social.
Uma característica presente em toda a atividade humana, a
mediação semiótica é um fundamento essencial para explicar o funcionamento das
funções mentais superiores, pois, de acordo com a teoria vygotskyana, a relação
com o mundo não é realizada diretamente, antes é mediada por instrumentos
(externo) e signos (interno).
As
atividades escolares, consideradas aqui como interações sociais, podem criar
zonas de desenvolvimento próximo, possibilitando avanços qualitativos no
desenvolvimento do sujeito. Dessa forma,
é necessário que se compreenda a importância dos processos
interpsicológicos na formação de zonas de desenvolvimento próximo, já que ela propicia processos de ensino mais eficientes
ao possibilitar a todos a apropriação do conhecimento historicamente produzido.
A esse respeito, assinala Vygotsky
(2000, p. 114):
Um
ensino orientado até uma etapa de desenvolvimento já realizado é ineficaz sob o
ponto de vista do desenvolvimento geral da criança, não é capaz de dirigir o
processo de desenvolvimento, mas vai atrás dele. A teoria do âmbito do
desenvolvimento potencial [zona de desenvolvimento proximal] origina uma
fórmula que contradiz exatamente a orientação tradicional: o único bom ensino é
o que se adianta ao desenvolvimento.
Deste
modo, para o estudioso russo (op.cit., p.115), são os processos de aprendizagem
que possibilitam o desenvolvimento cognitivo:
[...]
a aprendizagem não é em si mesma desenvolvimento, mas uma correta organização
da aprendizagem na criança conduz ao desenvolvimento mental, ativa todo um
grupo de processos de desenvolvimento, e esta ativação não poderia produzir-se
sem a aprendizagem. Por isso, a aprendizagem é um momento intrinsecamente
necessário e universal para que se desenvolvam na criança essas características
humanas não naturais, mas formadas historicamente.
Apoiando-se na tese vygotskiana de ZDP, Moll (1993,
p. 26) aponta três fatores para favorecer o seu surgimento: 1) Estabelecer um
nível de dificuldade. Este nível, que se supõe que seja o nível próximo, deve
ser algo desafiante para o estudante, mas não demasiado difícil; 2) Proporcionar desempenho com ajuda. O
adulto proporciona prática guiada ao estudante com um claro sentido do objetivo
ou resultado de seu desempenho; 3)
Avaliar o desempenho independente. O resultado mais lógico de uma zona de
desenvolvimento próximo é que a criança obtenha um desempenho de maneira
independente.
Como preconiza Vygotski (2002), a aprendizagem precede o desenvolvimento e
assim, entre a aprendizagem e o desenvolvimento, existe uma relação de tipo
dialética. Um ensino adequado contribui para criar zonas de desenvolvimento
próximo e servirá de estímulo para fazer com que o nível potencial do aluno se
integre com o atual. O que nos leva a crê que
modificações na prática pedagógica podem promover progressos no
desenvolvimento cognitivo geral.
Como não é difícil deduzir, as teses defendidas por
Vygotski apontam para a valorização da instituição escolar. Ele considera a educação formal como fonte de
crescimento do ser humano, se nela se introduzem conteúdos contextualizados e
significativos, orientados não para o nível de desenvolvimento atual do aluno,
mas para a zona de desenvolvimento próximo.
Para ele, o essencial não é a transferência de habilidades dos que sabem
mais aos que sabem menos, mas é o uso colaborativo das formas de mediação para
criar, obter e comunicar sentido (MOLL, 1993).
O ensino e o desenvolvimento — esclarece o psicólogo — são
resultado direto da atividade dos alunos em sua relação com o mundo
circundante. Daí a criança ser
considerada como um ente social, ativo, protagonista e produto das múltiplas
inter-relações sociais das quais participa ao longo de sua vida. Não se deve esquecer que ela reconstrói o conhecimento, o qual
primeiro se dá no plano interindividual e posteriormente no plano
intraindividual, para usá-lo de maneira
autônoma. Na interação com os outros, em diversos âmbitos sociais, é que ela
aprende e se desenvolve integralmente.
Por isso, o ensino deve apontar não ao que a criança
já conhece ou faz, nem aos comportamentos que já domina, mas, fundamentalmente,
àquilo que não conhece, não realiza ou não domina suficientemente. Isto é, o
professor deve ser constantemente exigente com os alunos, pondo-os perante
situações que impliquem um esforço de entendimento e de atuação.
Referências
MOLL,
Luis C. Vygotsky e a educação:
Implicações pedagógicas da
psicologia sócio-histórica. Porto
Alegre: Artes Médicas, 1993.
MORAN, Jose Manuel. Ensino e
aprendizagem inovadores com tecnologias. In: Informática na Educação: Teoria & Prática. Porto Alegre, vol.
3, n.1 (set. 2000) UFRGS. Programa de Pós-Graduação em Informática na Educação,
pág. 137-144. Disponível em: <http://www.eca.usp.br/prof/moran/inov.htm>. Acesso em: 27
jun 2012. p. 137
PORTO, Tania Maria Esperon. As tecnologias
de comunicação e informação na escola: relações possíveis ...relações
construídas. Revista Brasileira de
Educação. V. 11, nº 31, jan./abr. 2006. p. 43-57.
VYGOTSKY, Lev Semenovich. La imaginación y el arte em la infancia.
4. ed. Madrid: Akal, 1998.
VYGOTSKY, L. S.;
LURIA, A. R.; LEONTIEV,
A. N. Linguagem, Desenvolvimento e Aprendizagem, Trad.
Maria da Penha Villa Lobos, São Paulo: Ícone Editora, 2000.
VYGOTSKY, Lev
Semenovich. Pensamento e linguagem.
São Paulo : Martins Fontes, 2002.
[1] Mestre em Educação, Secretaria Municipal de
Educação de Vitória – ES, maryluce.cs@gmail.com
[2] Entendemos como
ferramentas/recursos tecnológicos: computadores, tablets, celulares, câmeras
digitais, internet, vídeo/DVD, projetor multimídia, mídia televisiva e outros elementos
específicos.
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO
http://portais4.ufes.br/posgrad/teses/nometese_200_MARYLUCE%20CERQUEIRA%20DE%20SOUZA%20VIANA.pdf
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